Natal 2018: Discurso do Papa Francisco na Apresentação dos Votos Natalinos

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
 À CÚRIA ROMANA
NA APRESENTAÇÃO DE VOTOS NATALÍCIOS

Sala Clementina
Sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

«A noite adiantou-se e o dia está próximo. Despojemo-nos, por isso,
das obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz» (Rm 13, 12).

Amados irmãos e irmãs!

Envolvidos pela alegria e a esperança que irradiam do rosto do Deus Menino, também este ano nos encontramos para trocar entre nós as boas-festas natalícias, trazendo no coração todas as canseiras e alegrias do mundo e da Igreja.

Desejo sinceramente um Santo Natal a vós, aos vossos colaboradores, a todas as pessoas que prestam serviço na Cúria, aos Representantes Pontifícios e aos colaboradores das Nunciaturas. E quero agradecer-vos a dedicação com que servis diariamente a Santa Sé, a Igreja e o Sucessor de Pedro. Muito obrigado!

Permiti-me também dar calorosas boas vindas ao novo Substituto da Secretaria de Estado, o Arcebispo D. Edgar Peña Parra, que começou o seu serviço, delicado e importante, no dia 15 de outubro passado. A sua origem venezuelana reflete a catolicidade da Igreja e a necessidade de se abrir cada vez mais os horizontes até aos confins da terra. D. Edgar, bem-vindo e bom trabalho!

O Natal é a festa que nos enche de alegria, dando-nos a certeza de que jamais pecado algum será maior que a misericórdia de Deus e nunca poderá qualquer ato humano impedir à aurora da luz divina de despontar sempre de novo nos corações dos homens; é a festa que nos convida a renovar o compromisso evangélico de anunciar Cristo, Salvador do mundo e luz do universo. De facto, «enquanto Cristo, “santo, inocente, imaculado” (Heb 7, 26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5, 21) mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf. Heb 2, 17), a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação. A Igreja “prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus” [no meio das perseguições do espírito mundano e das consolações do Espírito de Deus], anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26). Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que por fim se manifeste em plena luz» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 8).

Assim, apoiado na firme convicção de que a luz é sempre mais forte que as trevas, gostaria de refletir convosco sobre a luz que liga o Natal – isto é, a primeira vinda de Jesus na humildade – à Parusia – a segunda vinda na glória – e nos confirma na esperança que nunca dececiona e da qual depende a vida de cada um de nós e toda a história da Igreja e do mundo. Seria penosa uma Igreja sem esperança!

Na realidade, Jesus nasce numa situação sociopolítica e religiosa carregada de tensão, agitação e obscuridade. O seu nascimento, aguardado por uma parte da humanidade e rejeitado por outra, resume a lógica divina que não se detém perante o mal, antes, transforma-o radical e gradualmente em bem, e também a lógica maligna que até o bem transforma em mal para manter a humanidade no desespero e nas trevas: «a Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam» (Jo 1, 5).

Cada ano, porém, o Natal vem lembrar-nos que a salvação de Deus, concedida gratuitamente a toda a humanidade, à Igreja e de modo particular a nós, pessoas consagradas, não atua sem a nossa vontade, sem a nossa cooperação, sem a nossa liberdade, sem o nosso esforço diário. A salvação é um dom – é verdade – mas dom que deve ser recebido, guardado e feito frutificar (cf. Mt 25, 14-30). Assim, ser cristão em geral e, para nós em particular, ser ungidos, consagrados do Senhor, não significa comportar-nos como um círculo de privilegiados que julgam ter Deus às suas ordens, mas como pessoas cientes de que são amadas pelo Senhor não obstante serem pecadoras e indignas. De facto, os consagrados não passam de servos na vinha do Senhor, que, na devida altura, devem dar conta dos frutos recolhidos ao Dono da vinha (cf. Mt 20, 1-16; 21, 33-42).

A Bíblia e a história da Igreja mostram-nos que, muitas vezes, os próprios eleitos, com o passar do tempo, começam a pensar, a crer e a comportar-se como donos da salvação e não como beneficiários, como controladores dos mistérios de Deus e não como humildes distribuidores, como alfandegários de Deus e não como servidores do rebanho que lhes está confiado.

Muitas vezes – por zelo excessivo e mal orientado –, em vez de seguir a Deus, atravessamo-nos diante d’Ele, como Pedro que criticou o Mestre e mereceu a advertência mais severa que alguma vez Cristo tenha feito a uma pessoa: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens» (Mc 8, 33).

Amados irmãos e irmãs!

No mundo turbulento, a barca da Igreja viveu este ano e vive momentos difíceis, sendo acometida por tempestades e furacões. Muitos puseram-se a pedir a intervenção do Mestre, aparentemente adormecido: «Não te importas que pereçamos?» (Mc 4, 38); outros, aturdidos pelas notícias, começaram a perder a confiança nela e a abandoná-la; outros, por medo, por interesse, com segundas intenções, procuraram malhar no seu corpo, aumentando as suas feridas; outros não escondem o seu prazer por a verem abalada; mas muitíssimos outros continuam a agarrar-se-lhe com a certeza de que «as portas do Abismo nada poderão contra ela» (Mt 16, 18).

Entretanto a Esposa de Cristo prossegue a sua peregrinação entre alegrias e aflições, entre sucessos e dificuldades, externas e internas. Com certeza, as dificuldades internas continuam sempre a ser as mais dolorosas e mais destrutivas.

As aflições

Muitas são as aflições! Quantos migrantes – forçados a deixar a pátria sob risco de vida – encontram a morte, ou quantos sobrevivem, mas acham as portas fechadas e os seus irmãos em humanidade apenas preocupados com ganhos políticos e com o poder! Quanto medo e preconceito! Quantas pessoas e quantas crianças morrem diariamente por falta de água, comida e remédios! Quanta pobreza e miséria! Quanta violência contra os frágeis e contra as mulheres! Quantos cenários de guerras declaradas e não declaradas! Quanto sangue inocente é derramado todos os dias! Quanta desumanidade e brutalidade nos rodeiam por todo o lado! Quantas pessoas são sistematicamente torturadas ainda hoje, em várias partes do mundo, nos comissariados da polícia, nas prisões e nos campos de refugiados!

Na realidade, vivemos também uma nova era de «mártires». A cruel e atroz perseguição do Império Romano parece não conhecer fim. Continuamente nascem novos “neros” para oprimir os crentes, só por causa da sua fé em Cristo. Multiplicam-se novos grupos extremistas, tomando como alvo as igrejas, os lugares de culto, os ministros e os simples fiéis. Novos e velhos círculos e conventículos vivem nutrindo-se de ódio e hostilidade contra Cristo, a Igreja e os crentes. Quantos cristãos vivem ainda hoje, em tantas partes do mundo, sob o peso da perseguição, marginalização, discriminação e injustiça! Mas continuam corajosamente a abraçar a morte, para não renegar a Cristo. Ainda hoje, como é difícil viver livremente a fé em muitas partes do mundo, onde faltam a liberdade religiosa e a liberdade de consciência!

Entretanto o exemplo heroico dos mártires e de inúmeros bons samaritanos, ou seja, de jovens, famílias, movimentos sociocaritativos e de voluntariado e tantos fiéis e consagrados, não nos faz esquecer o contratestemunho e os escândalos dalguns filhos e ministros da Igreja.

Limito-me, aqui, apenas aos dois flagelos dos abusos e da infidelidade.

Desde há vários anos que a Igreja está seriamente empenhada em erradicar o mal dos abusos, que clama por justiça ao Senhor, a Deus que nunca esquece o sofrimento vivido por muitos menores por causa de clérigos e pessoas consagradas: abusos de poder, abusos de consciência e abusos sexuais.

Pensando neste assunto doloroso, veio-me à mente a figura do rei David – um «ungido do Senhor» (cf. 1 Sam 16, 13; 2 Sam 11-12) –, de cuja linhagem provem o Deus Menino – chamado também o «filho de David». Aquele, não obstante fosse eleito, rei e ungido do Senhor, cometeu um triplo pecado, isto é, três graves abusos juntos: abuso sexual, abuso de poder e abuso de consciência. Três abusos distintos, que, todavia, convergem e se sobrepõem.

Como sabemos, a história começa quando o rei, embora sendo perito de guerra, ficou em casa entregando-se ao ócio em vez de ir para a batalha no meio do povo de Deus. David aproveita-se, para seu comodismo e interesse, do facto de ser o rei (abuso de poder). O ungido, abandonando-se ao comodismo, começa o irreprimível declínio moral e de consciência. É precisamente neste contexto que ele, do terraço do palácio real, vê Betsabé, mulher de Urias o Hitita, que toma banho e sente-se atraído para ela (cf. 2 Sam 11). Manda-a chamar e une-se a ela (outro abuso de poder, para além do abuso sexual). Assim abusa duma mulher casada e só; e, para encobrir o seu pecado, chama a casa Urias e procura, em vão, convencê-lo a passar a noite com a esposa. E, sucessivamente, manda ao chefe do exército que exponha Urias a morte certa na batalha (outro abuso de poder, para além do abuso de consciência). A cadeia do pecado alarga-se como uma mancha de óleo e torna-se rapidamente uma rede de corrupção. David ficara em casa, ocioso.

Das cintilações da acédia e da luxúria e do abrandamento da vigilância, começa a cadeia diabólica dos pecados graves: adultério, mentira e homicídio. Presumindo que, sendo rei, podia fazer e obter tudo, David procura também enganar ao marido de Betsabé, ao povo, a si próprio e até a Deus. O rei descuida a sua relação com Deus, transgride os mandamentos divinos, fere a integridade moral própria, não se sentindo sequer culpado. O ungido continuava a exercer a sua missão como se nada tivesse acontecido. A única coisa que lhe importava era salvaguardar a sua imagem e aparência. Pois, «quem não se dá conta de cometer faltas graves contra a Lei de Deus, pode deixar-se cair numa espécie de entorpecimento ou sonolência. Como não encontra nada de grave a censurar-se, não adverte aquela tibieza que pouco a pouco se vai apoderando da sua vida espiritual e acaba por ficar corroído e corrompido» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 164). De pecador, acaba por se tornar corrupto.

Hoje, também existem tantos «ungidos do Senhor», homens consagrados, que abusam dos fracos, valendo-se do seu poder moral e de persuasão. Cometem abomínios e continuam a exercer o seu ministério como se nada tivesse acontecido; não temem a Deus nem o seu juízo, mas apenas ser descobertos e desmascarados. Ministros, que dilaceram o corpo da Igreja, causando escândalos e desacreditando a missão salvífica da Igreja e os sacrifícios de muitos dos seus irmãos.

Também hoje, amados irmãos e irmãs, tantos “davides” entram, sem pestanejar, na rede de corrupção, atraiçoam Deus, os seus mandamentos, a própria vocação, a Igreja, o povo de Deus e a confiança dos pequeninos e dos seus familiares. Muitas vezes, por detrás daquela sua desmedida gentileza, impecável atividade e angélica fisionomia, despudoradamente esconde-se um lobo atroz, pronto a devorar as almas inocentes.

Os pecados e crimes das pessoas consagradas matizam-se de cores ainda mais foscas de infidelidade, de vergonha e deformam o rosto da Igreja, minando a sua credibilidade. De facto, a própria Igreja, juntamente com os seus filhos fiéis, é vítima destas infidelidades e destes verdadeiros «crimes de peculato».

Amados irmãos e irmãs!

Fique claro que a Igreja, perante estes abomínios, não poupará esforços fazendo tudo o que for necessário para entregar à justiça toda a pessoa que tenha cometido tais delitos. A Igreja não procurará jamais dissimular ou subestimar qualquer um destes casos. É inegável que no passado alguns responsáveis, por irreflexão, incredulidade, falta de preparação, inexperiência – devemos julgar o passado com a hermenêutica de então – ou por superficialidade espiritual e humana, trataram muitos casos sem a devida seriedade e prontidão. Isto nunca mais deve acontecer. Esta é a opção e a decisão de toda a Igreja.

No próximo mês de fevereiro, a Igreja reiterará a sua firme vontade de prosseguir, com toda a sua força, pelo caminho da purificação. A Igreja, valendo-se também da ajuda dos peritos, questionar-se-á como proteger as crianças; como evitar tais calamidades, como tratar e reintegrar as vítimas; como reforçar a formação nos seminários. Procurar-se-á transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar este flagelo não só do corpo da Igreja, mas também do seio da sociedade. Com efeito, se esta calamidade gravíssima chegou a enredar alguns ministros consagrados, perguntamo-nos quão profunda poderá ser ela nas nossas sociedades e nas nossas famílias? Por isso, a Igreja não se limitará a curar-se, mas procurará enfrentar este mal que causa a morte lenta de tantas pessoas a nível moral, psicológico e humano.

Amados irmãos e irmãs!

Ao falar deste flagelo, alguns – dentro da Igreja – arremetem contra certos operadores da comunicação, acusando-os de ignorar que a maioria absoluta dos casos de abusos não é cometida pelos clérigos da Igreja – as estatísticas apontam para mais de 95% – e acusando-os de querer intencionalmente dar uma imagem falsa, como se este mal tivesse atingido apenas a Igreja Católica. Eu, pelo contrário, gostaria de agradecer sinceramente aos operadores dos mass media que foram honestos e objetivos e que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas. Mesmo que se tratasse de um único caso de abuso – que de per si já constitui uma monstruosidade –, a Igreja pede que não seja silenciado mas o tragam objetivamente à luz, porque o maior escândalo nesta matéria é o de encobrir a verdade.

Todos nos lembramos de que David só compreendeu a gravidade do seu pecado, graças ao encontro com o profeta Natã. Hoje precisamos de novos “natãs” que ajudem os inúmeros “davides” a despertarem duma vida hipócrita e perversa. Por favor, ajudemos a Santa Mãe Igreja na sua tarefa difícil que é reconhecer os casos verdadeiros distinguindo-os dos falsos, as acusações das calúnias, os rancores das insinuações, os boatos das difamações. Uma tarefa bastante difícil, já que os verdadeiros culpados sabem esconder-se tão escrupulosamente que muitas esposas, mães e irmãs não conseguem descobri-los nas pessoas mais próximas: maridos, padrinhos, avós, tios, irmãos, vizinhos, professores… As próprias vítimas, bem escolhidas pelos seus predadores, muitas vezes preferem o silêncio e, levadas pelo medo, tornam-se até subservientes à vergonha e ao terror de serem abandonadas.

E a quantos abusam dos menores, gostaria de dizer: convertei-vos, entregai-vos à justiça humana e preparai-vos para a justiça divina, lembrando-vos das palavras de Cristo: «se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em Mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos! São inevitáveis, decerto, os escândalos; mas ai do homem por quem vem o escândalo» (Mt 18, 6-7).

Amados irmãos e irmãs!

Permiti que vos fale agora também doutra aflição, ou seja, da infidelidade daqueles que atraiçoam a sua vocação, o seu juramento, a sua missão, a sua consagração a Deus e à Igreja; aqueles que se escondem, por detrás de boas intenções, para apunhalar os seus irmãos e semear joio, divisão e perplexidade; pessoas que sempre encontram justificações, até lógicas, até espirituais, para continuar a percorrer, imperturbáveis, o caminho da perdição.

Isto não é uma novidade na história da Igreja. Santo Agostinho, falando do trigo bom e do joio, diz: «julgais vós, meus irmãos, que o joio não possa elevar-se até às cátedras episcopais? Pensais talvez que aquele exista apenas nas classes inferiores e não nas superiores? Quisera o céu que nós não fôssemos joio! (…) Também nas cátedras episcopais há o trigo e há o joio; e, no meio das várias comunidades de fiéis, há o trigo e há o joio» (Sermão 73, 4: PL 38, 472).

Estas palavras de Santo Agostinho exortam-nos a lembrar o provérbio: «De boas intenções, está o inferno cheio»; e ajudam-nos a compreender que o Tentador, o Grande Acusador, é aquele que divide, semeia discórdia, insinua inimizade e convence os filhos a duvidar.

Na realidade, por trás destes semeadores de joio encontram-se quase sempre as trinta moedas de prata. E, assim, a figura de David leva-nos à de Judas Iscariotes, outro escolhido pelo Senhor que vende e entrega o seu Mestre à morte. David pecador e Judas Iscariotes estarão sempre presentes na Igreja, pois representam a fraqueza que faz parte do nosso ser humano. São ícones dos pecados e crimes cometidos por pessoas eleitas e consagradas. Embora unidos na gravidade do pecado, distinguem-se todavia na conversão. David arrependeu-se entregando-se à misericórdia de Deus, enquanto Judas se suicidou.

Por conseguinte todos nós, para fazer resplandecer a luz de Cristo, temos o dever de combater toda a corrupção espiritual, que «é pior que a queda dum pecador, porque trata-se duma cegueira cómoda e autossuficiente, em que tudo acaba por parecer lícito: o engano, a calúnia, o egoísmo e muitas formas subtis de autorreferencialidade, já que “também Satanás se disfarça em anjo de luz” (2 Cor 11, 14). Assim acabou os seus dias Salomão, enquanto o grande pecador David soube superar a sua miséria» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 165).

As alegrias

Passemos às alegrias. Foram numerosas este ano, como, por exemplo, o bom êxito do Sínodo dedicado aos jovens, a que aludia o Cardeal Decano. Os passos realizados até agora na reforma da Cúria. Muitos se interrogam: Quando acabará? Nunca mais acabará, mas os passos são bons. Por exemplo, os trabalhos de clarificação e transparência na economia; os louváveis esforços envidados pelo Departamento do Auditor Geral e pela AIF; os bons resultados alcançados pelo IOR; a nova Lei do Estado da Cidade do Vaticano; o Decreto sobre o trabalho no Vaticano, e tantas outras realizações menos visíveis. Recordamos, entre as alegrias, os novos Beatos e Santos que são as «pedras preciosas» que adornam o rosto da Igreja e irradiam esperança, fé e luz sobre o mundo. Forçoso é mencionar aqui os recentes dezanove mártires da Argélia: «dezanove vidas entregues por Cristo, pelo seu Evangelho e pelo povo argelino, (…) modelos de santidade comum, a santidade “da porta ao lado”» (Tomás Georgeon, «Sob o signo da fraternidade», in: L’Osservatore Romano, 8/XII/2018, p. 6); o elevado número de fiéis que cada ano, ao receber o batismo, renovam a juventude da Igreja, como mãe sempre fecunda, e os inúmeros filhos que regressam a casa e reabraçam a fé e a vida cristã; as famílias e os pais que vivem seriamente a fé e a transmitem diariamente aos próprios filhos através da alegria do seu amor (cf. Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia, 259–290); o testemunho de muitos jovens que escolhem corajosamente a vida consagrada e o sacerdócio.

Um verdadeiro motivo de alegria é também o grande número de consagrados e consagradas, bispos e sacerdotes, que vivem diariamente a sua vocação com fidelidade, em silêncio, na santidade e abnegação. São pessoas que iluminam a escuridão da humanidade, com o seu testemunho de fé, esperança e caridade. Pessoas que, por amor de Cristo e do seu Evangelho, trabalham pacientemente a favor dos pobres, oprimidos e marginalizados, sem procurar aparecer nas primeiras páginas dos jornais nem ocupar os primeiros lugares. Pessoas que, deixando tudo e oferecendo a sua vida, levam a luz da fé aonde Cristo está abandonado, sequioso, faminto, preso e nu (cf. Mt 25, 31-46). E penso de modo particular nos numerosos párocos que dia-a-dia dão bom exemplo ao povo de Deus, sacerdotes próximos das famílias, que conhecem o nome de todos e vivem a sua vida com simplicidade, fé, zelo, santidade e caridade. Pessoas esquecidas pelos mass media, mas sem as quais reinaria a escuridão.

Amados irmãos e irmãs!

Falando da luz, das aflições, de David e de Judas, quis colocar em destaque o valor da circunspeção que se deve transformar num dever de vigilância e custódia por parte de quem, nas estruturas da vida eclesiástica e consagrada, exerce o serviço do governo. Na realidade, a força de toda e qualquer instituição não reside em ser composta por homens perfeitos (isto é impossível), mas na sua vontade de se purificar continuamente; na sua capacidade de reconhecer humildemente os erros e corrigi-los; na aptidão para se levantar das quedas; reside em ver a luz do Natal que parte da manjedoura de Belém, percorre a história e chega até à Parusia.

Por isso, é necessário abrir o nosso coração à verdadeira luz: Jesus Cristo. Ele é a luz que pode iluminar a vida e transformar as nossas trevas em luz; a luz do bem que vence o mal; a luz do amor que supera o ódio; a luz da vida que vence a morte; a luz divina que transforma tudo e todos em luz; a luz do nosso Deus: pobre e rico, misericordioso e justo, presente e escondido, pequeno e grande.

Lembremos as palavras estupendas de São Macário o Grande, um padre do deserto egípcio do século IV, que, ao falar do Natal, afirma: «Deus fez-Se pequeno! O inacessível e incriado, na sua bondade infinita e inimaginável, assumiu um corpo e fez-Se pequeno. Na sua bondade, desceu da sua glória. Ninguém, nos céus e sobre a terra, pode compreender a grandeza de Deus e ninguém, nos céus e sobre a terra, pode compreender como Deus Se faz pobre e pequeno para os pobres e os pequenos. Tal como é incompreensível a sua grandeza, assim o é também a sua pequenez» [Homilias IV, 9-10; XXXII, 7, in Spirito e fuoco. Omelie Spirituali, Coleção II (Qiqajon-Bose, Magnano1995), pp. 88-89; 332-333].

Lembremo-nos de que o Natal é a festa do «Deus grande que Se faz pequeno e, na sua pequenez, não cessa de ser grande. E, nesta dialética do grande ser pequeno, está a ternura de Deus; ternura, uma palavra que o mundanismo sempre procura tirar do dicionário. O Deus grande que Se faz pequeno, que é grande e continua a fazer-Se pequeno» (cf. Francisco, Homilia em Santa Marta, 14/XII/2017; Homilia em Santa Marta, 25/IV/2013).

Cada ano, o Natal dá-nos a certeza de que a luz de Deus, não obstante a nossa miséria humana, continuará a brilhar; a certeza de que a Igreja sairá destas tribulações, ainda mais bela, purificada e esplêndida. Com efeito, todos os pecados, as quedas e o mal cometido por alguns filhos da Igreja não poderão jamais obscurecer a beleza do seu rosto; antes, são até a prova certa de que a sua força não se encontra em nós, mas está sobretudo em Cristo Jesus, Salvador do mundo e Luz do universo, que ama a Igreja e deu a sua vida por ela, sua esposa. O Natal prova que os graves males cometidos por alguns não poderão jamais ofuscar todo o bem que a Igreja faz gratuitamente no mundo. O Natal dá-nos a certeza de que a verdadeira força da Igreja e do nosso trabalho diário, tantas vezes escondido como o da Cúria – nela há santos –, está no Espírito Santo que a guia e protege através dos séculos, transformando até os pecados em ocasiões de perdão, as quedas em ocasiões de renovamento, o mal em ocasião de purificação e vitória.

Muito obrigado e feliz Natal a todos!

[o Santo Padre dá a Bênção]

Também este ano gostaria de vos deixar uma lembrança. É um clássico – o Compêndio de teologia ascética e mística, de Tanquerey –, mas numa edição recente elaborada por D. Libanori, Bispo Auxiliar de Roma, e pelo Padre Forlai, diretor espiritual do Seminário de Roma. Considero-o bom. É melhor não o ler do início ao fim, mas procurar no índice uma virtude particular, uma certa atitude, um tema concreto… Far-nos-á bem, para a reforma de cada um de nós e para a reforma da Igreja. É para vós!

ORIGEM DO TEXTO ACIMA: Vaticano

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Video da Cerimônia:

 

Origem do Video: Vatican News

© Copyright – Libreria Editrice Vaticana

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