Chamados de Amor e Conversão

29 de maio – Solenidade da Ascensão do Senhor Jesus

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A ascensão de Cristo Redentor nosso aos céus com todos os Santos que lhe assistiam, e leva consigo a sua Mãe Santíssima para lhe dar a posse da glória – na visão da Venerável Soror Maria de Jesus de Ágreda, da Espanha, da Mística Cidade de Deus 

 

Texto extraído do original espanhol LIVRO VI — CAP. 29 – pág. 1095 e seguintes – 3ª Reimpressão, 2009 – OBRA: MÍSTICA CIDADE DE DEUS A VIDA DE MARIA – Escrita por SOROR MARIA DE JESUS DE ÁGREDA.

Tradução livre do espanhol para o português, por este site.

Texto de acordo com o autógrafo original – Introdução, notas e edição por CELESTINO SOLAGUREN, OFM.

Com a colaboração de Ángel Martínez Moñux, OFM, e Luis Villasante, OFM – MADRID, 2009.

Excerto traduzido do espanhol para o português, por Julio, Apostolado do Brasil.

Obra: Mística Cidade de Deus Vida da Virgem Maria

NIHIL OBSTAT: CÁNDIDO ZUBIZARRETA, OFM – Censor Ordinis – 4 noviembre 1970.

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  1. VICENTE SERRANO – 21 noviembre 1970.

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IMPRIMASE: + RICARDO, OBISPO AUX. – Y VIC. GEN. – 21 diciembre 1970.

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IMPRIMI POTEST: FR. MARCELINO ASURABARRENA Min. Prov. – 4 noviembre 1970.

1.a Edición, 1970 – La Reimpresión, 1982 – 2.a Reimpresión, 1992 – 3.a Reimpresión, 2009.

PROPIEDAD Y VENTA DE LA OBRA: MM. CONCEPCIONISTAS DE ÁGREDA (SORIA) – I.S.B.N.: 978-84-300-7944-5 – Depósito legal: M. 31.258-2009 – Imprenta FARESO, S. A. — Paseo de la Dirección, 5. 28039 Madrid.

Sitio del Orden de la Inmaculada Concepción – conocidas también como Concepcionistas Franciscanas: https://mariadeagreda.org

 

1509. Chegou a hora felicíssima em que o Filho Unigênito do Pai Eterno, que pela Encarnação humana desceu do céu, havia de subir a ele com admirável e próprio ascenso, para assentar-se à destra que lhe tocava como herdeiro de suas eternidades, gerado de sua substância em igualdade e unidade de natureza e glória infinita.

Subiu tanto, porque desceu primeiro até o inferior da terra, como diz o Apóstolo (Ef 4, 9), deixando cheias todas as coisas que de Sua vinda ao mundo, de Sua vida, morte e redenção humana, estavam ditas e escritas, havendo penetrado como Senhor de tudo até o centro da terra, e tendo lançado o selo todos os seus mistérios com este de Sua ascensão, em que deixou prometido o Espírito Santo, que não viria, se primeiro se não subisse aos céus o próprio Senhor, que com o Pai O lhe havia de enviar à Sua nova Igreja.

Para celebrar dia tão festivo e misterioso, escolheu Cristo nosso bem, por especiais testemunhas as cento e vinte pessoas, que reuniu e encontrou no cenáculo, como no capítulo passado se disse, que eram Maria Santíssima e os onze Apóstolos, os setenta e dois discípulos, Santa Maria Madalena, Santa Marta e São Lázaro, irmão das duas, e as outras Marias e alguns fiéis, homens e mulheres, até cumprir o número acima mencionado (Cf. supra n. 1504) de cento e vinte. 

 

1510. Com esta pequena grei saiu do Cenáculo nosso Divino Pastor Jesus, levando-os a todos pelas ruas de Jerusalém e ao seu lado a beatíssima Mãe. E logo os Apóstolos e todos os demais em sua ordem caminharam até Betânia, que era menos de meia légua (1 légua ~ 5,556 km) no sopé do Monte das Oliveiras.

A companhia dos Anjos e Santos que saíram do limbo e purgatório seguiam o Triunfador vitorioso com novos cânticos de louvor, ainda que de sua visão só gozava Maria Santíssima.

Estava já divulgada por toda Jerusalém e Palestina a Ressurreição de Jesus Nazareno, ainda que a pérfida malícia dos príncipes dos sacerdotes procurava que se assentasse o falso testemunho de que os discípulos lhe haviam furtado, mas muitos não o admitiram, não deram crédito.

E com tudo isso dispôs a Divina Providência, que nenhum dos moradores da cidade, ou incrédulos ou duvidosos, reparassem naquela santa procissão que saia do Cenáculo, nem lhes impedissem o caminho, porque todos estiveram justamente inadvertidos, como incapazes de conhecer aquele mistério tão maravilhoso, não obstante que o capitão e mestre Jesus ia invisível para todos os demais, fora dos cento e vinte justos que escolheu para que o vissem subir aos céus. 

 

1511. Com esta segurança, que lhes preveniu o poder do próprio Senhor, caminharam todos até subir ao mais alto do Monte Oliveiras, e chegando ao lugar determinado, formaram-se três coros: um de Anjos, outro de Santos, e o terceiro de Apóstolos e fiéis, que se dividiram em duas alas, e Cristo, nosso Salvador, era a cabeça.

Logo a prudentíssima Mãe prostrou-se aos pés de seu filho e o adorou por verdadeiro Deus e Reparador do mundo, com admirável culto e humildade, e pediu-se sua última bênção.

E todos os demais fiéis que ali estavam, a imitação de sua grande Rainha, fizeram o mesmo, e com grandes soluços e suspiros perguntaram ao Senhor se naquele tempo havia de restaurar o reino de Israel. E Sua Majestade respondeu-lhes que aquele segredo era de seu Eterno Pai, e não lhes convinha sabe-lo, e que por então era necessário e conveniente que em recebendo o Espirito Santo pregassem em Jerusalém, na Samaria e em todo o mundo os mistérios da Redenção humana. 

 

1512. Despedido Sua Divina Majestade daquela santa e feliz congregação de fiéis com semblante pacífico e majestoso, juntou as mãos e em sua própria virtude começou a erguer-se do solo, deixando nele os sinais ou vestígios de seus sagrados pés.

E com um suavíssimo movimento foi-se encaminhando pela região do ar, levando atrás de si os olhos e o coração daqueles Filhos primogênitos, que entre suspiros e lágrimas o seguiam com afeto.

E como ao movimento do primeiro móvel também se movem os céus inferiores, que compõem sua esfera dilatada, assim nosso Salvador Jesus levou atrás de si mesmo os coros celestiais de Anjos e Santos Pais, e os demais que o acompanhavam glorificados, alguns em corpo e alma, outros só em almas, e todos juntos e ordenados subiram e se levantaram da terra, acompanhando e seguindo seu Rei, Capitão e Cabeça. 

 

O novo e oculto sacramento que a destra do Altíssimo obrou nesta ocasião, foi levar consigo sua Mãe Santíssima, para dar-lhe no céu a posse da glória e do lugar, que, como Mãe verdadeira, lhe havia anunciado, e ela, com seus méritos adquirido, e para adiante prevenido.

Deste favor estava já capaz a grande Rainha antes que ele acontecesse, porque seu Filho Santíssimo o havia oferecido a ela nos quarenta dias que a acompanhou depois de sua milagrosa ressurreição.

E porque a nenhuma outra criatura humana e vivente se lhe manifestasse este sacramento por então, e para que na congregação dos apóstolos e demais fiéis assistissem sua divina Mestra, perseverando com eles em oração, até a vinda do Espirito Santo, como se diz nos Atos dos Apóstolos (At 1, 14), obrou o poder divino por milagroso e admirável modo, que Maria Santíssima estivesse em duas partes, ficando com os filhos da Igreja, seguindo-os ao Cenáculo e assistindo com eles, e subindo em companhia do Redentor do mundo, e em seu próprio trono, aos céus, onde esteve três dias com mais perfeito uso das potencias e sentidos, e ao mesmo tempo no cenáculo com menos exercício deles.

1513. Foi a beatíssima Senhora levantada com seu Filho Santíssimo e colocada sua destra, cumprindo-se o que disse o Santo Rei e Profeta David (Sal 44, 10), que esteve a Rainha a sua destra com vestido dourado de resplendores de glória e rodeada de variedade de dons e graças à vista dos Anjos e Santos que ascendiam com o Senhor.

E para que a admiração deste grande mistério desperte mais a devoção, inflame a viva fé dos fiéis e os incline a engrandecer ao autor de tão rara e não pensada maravilha, advirto aos que lerem este milagre que, desde que o Muito Alto me declarou sua vontade de que escrevesse esta História, e me intimou mandato para executá-lo, repetidíssimas vezes e em dilatado tempo e largos anos, que passaram me manifestou Sua Majestade diversos mistérios e descoberto grandes sacramentos, dos que deixo escritos e direi adiante, porque a alteza do argumento pedia esta prevenção e disposição.

Não o recebia tudo junto, porque não é capaz a limitação da criatura, de tanta abundância, mas para escreve-lo se me renova a luz por outro modo, de cada mistério em particular; e as inteligências de todos têm sido ordinariamente nos dias festivos de Cristo nosso Salvador e da grande Rainha do céu, e singularmente este sacramento grande, de levar o Filho santíssimo sua puríssima Mãe no dia da Ascensão com ele para céu, e permanecer no céu e ficando no Cenáculo por modo admirável e milagroso, o conheci consecutivamente alguns anos nos mesmos dias.

1514. A firmeza que traz consigo, a verdade divina não deixa dúvida para o entendimento que a conhece e olha no próprio Deus, onde tudo é luz, sem mescla de trevas (1 Jo 1, 5) e se conhece o objeto e a razão. Mas para quem ouve na relação estes mistérios, necessário é dar motivos à piedade, para pedir crédito do que é obscuro. E por esta causa me encontrava em dúvida para escrever o oculto sacramento desta subida aos céus, de nossa Rainha, se não fosse tão grande falta negar a esta História maravilha e prerrogativa que tanto a engrandece.

A mim se me ofereceu a dúvida quando conheci este mistério a primeira vez. Mas agora que o escrevo não a tenho, depois que disse na primeira parte (Cf. supra p. l. n. 331) como em nascendo a Princesa das alturas, foi levada menina ao céu empíreo, e nesta segunda parte disse (Cf. supra n. 72, 90) que aconteceu o mesmo duas vezes nos nove dias que precederam a Encarnação do Verbo, para dispô-la dignamente para tão alto mistério.

E se o poder divino fez com Maria Santíssima estes favores tão admiráveis antes de ser Mãe do Verbo, dispondo-a para que o fosse, muito mais crível é que os repetiria depois que já estava consagrada, com o haver tido em seu virginal tálamo, dando-lhe forma humana de seu puríssimo sangue, alimentando-o por seus seios com seu leite e criando-o como Filho verdadeiro, e depois de haver-lhe servido trinta e três anos, seguindo-o e imitando-o em sua vida, paixão e morte, com a fidelidade que nenhuma língua pode explicar.

1515. Nestes favores e mistérios de Maria Santíssima, é coisa muito diferente investigar a razão pela qual o Altíssimo os operou nela, ou porque os manteve ocultos por tantos séculos em sua Igreja.

O primeiro se há de regular com o poder divino e o amor imenso que teve por sua Mãe e pela dignidade que lhe deu sobre todas as criaturas.

E como os homens em carne mortal não chegam a conhecer plenamente a dignidade da Mãe, nem o amor que seu Filho teve e tem por ela e toda a Santíssima Trindade, nem os méritos e a santidade a que sua onipotência a elevou, por essa ignorância, limitam o poder divino ao máximo em obrar com sua Mãe, tudo o que pode, que foi tudo o que quis.

Mas se a ela só se deu a si mesmo, com tão especial modo, como fazer-se filho de sua substância, consequentemente, era na ordem da graça, fazer com ela singularmente, o que com nenhum outro, nem com toda a linhagem humana se devia fazer, nem convinha; e com ela não somente hão de ser singulares os favores, benefícios e dons que fez o Altíssimo com sua Mãe Santíssima, mas a regra geral é que ninguém lhe negou de quantos puderam fazer com ela, que redundasse em sua glória e santidade, depois da sua humanidade santíssima. 

 

1516. Mas, ao manifestar Deus estas maravilhas à sua Igreja, concorrem outras razões de sua altíssima Providência, com que a governa e lhe vai dando novos resplendores, segundo os tempos e as necessidades, que com eles se oferece.

Porque o ditoso dia da graça, que amanheceu ao mundo com a Encarnação do Verbo Humanado e a Redenção dos homens, tem sua manhã e meridiano, como terá seu ocaso, e tudo o dispõe a eterna sabedoria, como e quando oportunamente convém.

E ainda que todos os mistérios de Cristo e de sua Mãe estejam revelados nas divinas Escrituras, mas nem todos se manifestam igualmente a um mesmo tempo, mas pouco a pouco foi correndo o Senhor a cortina das figuras e metáforas ou enigmas, com que se revelaram muitos sacramentos, como tão cerrados e reservados para seu tempo, como o estão os raios do sol depois de haverem saído da nuvem que os oculta até que se retire.

E não é de maravilhar-se que aos homens, se lhes vá comunicando por partes, algum dos muitos raios desta divina luz, pois os mesmos anjos, ainda que conhecessem desde sua criação o mistério da Encarnação em substância, e como em geral, como fim aonde se ordenava todo o ministério que têm com os homens, mas não se lhes manifestaram aos divinos espíritos todas as condições, efeitos e circunstâncias deste mistério. Antes hão conhecido muitas delas, depois de cinco mil e duzentos e mais anos da criação do mundo.

E este novo conhecimento do que não sabiam em particular, causava-lhes nova admiração de louvor e glória, que davam ao autor, como em todo o discurso desta História repito muitas vezes (Cf. supra n. 631, 692, 997, 1261, 1286).

E com este exemplo, respondo à admiração que pode causar a quem ouve de novo o mistério que aqui escrevo de Maria Santíssima, oculto até que o Altíssimo o tenha querido manifestar, com os demais que deixo escrito e escreverei mais adiante.

1517. Antes que eu fosse capaz dessas razões, quando comecei a conhecer este mistério, de ter levado Cristo nosso Salvador sua Mãe Santíssima consigo em sua Ascensão, não foi pequena minha admiração, não tanto em meu nome, como nos demais, a cuja notícia chegou.

E entre outras coisas que entendi então sobre o Senhor, foi recordar-me o que São Paulo de si mesmo deixou escrito na Igreja, quando referiu o arrebatamento que teve até o terceiro céu (2 Cor 12, 2), que foi o dos bem-aventurados, onde deixou em dúvida se foi arrebatado em corpo ou fora dele, sem afirmar ou negar algum destes dois modos, antes supondo que poderia ter sido por qualquer deles.

E entendi logo, que se ao Apóstolo no início de sua conversão lhe aconteceu isto, de tal maneira que pudesse ser levado ao céu empíreo corporalmente, quando não haviam precedido nele méritos, mas culpas, e conceder-lhe este milagre, ao poder divino não tem perigo nem inconveniência na Igreja, como se há de duvidar que faria o próprio Senhor esse favor à sua Mãe, e mais sobre tão inefáveis merecimentos e santidade?

Acrescentou mais o Senhor: que se a outros Santos dos que ressuscitaram no corpo com a ressurreição de Cristo, foi-lhes concedido subir em corpo e alma com Sua Majestade, mais razão havia para conceder à Sua Mãe puríssima este favor, pois, ainda que a nenhum dos mortais se lhes fizera este benefício, à Maria Santíssima se devia, em algum modo, por haver padecido com o Senhor.

E era posto em razão, que com ele mesmo entrasse na parte do triunfo e do gozo com que chegava a tomar posse na destra de seu Eterno Pai, para que da sua a tomasse também sua própria Mãe, que lhe havia dado de sua própria substância, aquela natureza humana em que subia triunfalmente aos céus.

E assim como era conveniente que nesta glória não se apartassem Filho e Mãe, também o era que nenhum outro da linhagem humana em corpo e alma chegasse primeiro à posse daquela eterna felicidade que Maria  Santíssima, ainda que fossem seu pai e mãe e seu esposo São José e os demais, que a todos e ao próprio Senhor e Filho Santíssimo Jesus lhes faltasse essa parte de gozo acidental naquele dia sem Maria Santíssima, e se não entrasse com eles na pátria celestial como Mãe de seu Reparador e Rainha de todo o criado, a quem nenhum de seus vassalos se devia antepor neste favor e benefício.

1518. Estas congruências me parecem suficientes para que a piedade católica se alegre e se console com a notícia deste mistério, e dos que direi adiante, desta condição na terceira parte.

 

E voltando ao discurso da História, digo que nosso Salvador levou consigo sua Mãe santíssima na subida aos céus, cheia de resplendor e glória à vista dos Anjos e Santos, com incrível júbilo e admiração de todos.

E era muito conveniente por então, que os Apóstolos e os outros fiéis ignorassem este mistério, porque se vissem ascender sua Mãe e Mestra com Cristo, os afligiria o desconsolo sem media, nem recurso de algum alívio, pois não lhes restava outro maior, que imaginar tinham consigo a beatíssima Senhora e Mãe piedosíssima.

Com tudo isso, foram grandes os suspiros, lágrimas e gritos que eles davam do íntimo de suas almas, quando viram que seu amantíssimo Mestre e Redentor ia se afastando pela região do ar. 

 

E quando já o estavam perdendo de vista, interpôs-se uma nuvem refulgentíssima entre o Senhor e os que permaneciam na terra, e com esta nuvem se ocultou de todo o ponto para deixar de vê-lo.

Vinha nela a pessoa do Eterno Pai, que desceu do supremo céu à região do ar, para receber seu Unigênito humanado e a Mãe que lhe deu o novo ser humano em que retornava.

E chegando o Pai por si mesmo, recebeu-os com um abraço inseparável de infinito amor e novo gozo para os Anjos, que em exércitos inumeráveis vinham do céu, assistindo a Pessoa do Eterno Pai [em todos os lugares está presente a Consubstancial Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo com substância e essência, mas com graça santificante e habitando somente nas almas dos justos].

Então, em breve espaço de tempo e penetrando os elementos e os orbes celestes, chegou-lhes toda esta divina procissão ao lugar supremo do empíreo. Os Anjos que subiram da terra com seus Reis Jesus e Maria, e os que voltavam da região do ar, falaram na entrada com os demais que ficaram nas alturas, e repetiram aquelas palavras do Santo Rei Davi (Sl 23, 7), acrescentando outras que declaram o mistério, e disseram:

1519. Abri, príncipes, abri vossas portas eternas; levantem-se e estejam patentes, para que entre em sua morada o grande Rei da glória, o Senhor das virtudes, o poderoso nas batalhas e forte e vencedor, que vem vitorioso e triunfador de todos seus inimigos. Abri as portas do soberano paraíso, e sempre estejam patentes e franqueadas, que sobe o novo Adão, reparador de toda sua linhagem humana, rico em misericórdias, abundante nos tesouros de seus próprios merecimentos, carregado de despojos e primícias da copiosa Redenção que com sua morte obrou no mundo.

Já restaurou a ruina de nossa natureza e levantou a humana à suprema dignidade de seu próprio ser imenso. Já retorna com o reino que lhe deu seu Pai dos eleitos e redimidos.

Já sua liberal misericórdia deixa aos mortais a potestade, para que, de justiça possam adquirir o direito que perderão pelo pecado, para merecer com a observância de sua lei a vida eterna, como irmãos seus e herdeiros dos bens de seu Pai; e para maior glória sua e gozo nosso, traz consigo e ao seu lado a Mãe da piedade, que lhe deu a forma de homem em que venceu o demônio, e vem nossa Rainha tão agradável e especiosa, que deleita a quem a olha. Saí, saí, divinos cortesãos, vereis ao nosso Rei formosíssimo com o diadema que lhe deu sua Mãe, e à sua Mãe, coroada com a glória que lhe dá seu Filho. 

 

1520. Com este júbilo e o que excede ao nosso pensamento chegou ao céu empíreo aquela nova procissão tão ordenada, e, postos em dois coros Anjos e Santos, passaram Cristo Nosso Redentor e sua Beatíssima Mãe.

E todos por sua ordem, lhes deram suprema adoração a cada um e aos dois respectivamente, cantando novos cânticos de louvores aos autores da graça e da vida.

O Eterno Pai assentou à sua destra no trono da divindade o Verbo humanado, com tanta glória e majestade, que pôs em nova admiração e temor reverencial a todos os moradores do céu, que conheciam com visão e intuitiva a divindade de infinita glória e perfeições, encerrada e unida substancialmente em uma pessoa a humanidade santíssima, embelezada e levantada à preeminência e glória, que daquela inseparável união lhe resultava, que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais pode caber em pensamento criado. 

 

1521. Nesta ocasião, subiu de ponto a humildade e a sabedoria de nossa prudente Rainha, porque entre divinos e admiráveis favores, ficou como se estivesse no pedestal do trono real, desfeita em seu próprio conhecimento de pura e terrena criatura, e prostrada, adorou o Pai, e fez-lhe novos cânticos de louvor pela glória que comunicava a seu Filho, elevando nEle sua humanidade divinizada deificada em tão excelsa grandeza e glória.

Foi para os Anjos e Santos um novo motivo de admiração e gozo, ao ver a prudentíssima humildade de sua Rainha, de quem, como de um exemplo vivo, copiavam com santa emulação suas virtudes de adoração e reverência.

Ouviu-se logo uma voz do Pai que lhe dizia: Filha minha, ascende mais adiante. E seu Filho santíssimo também a chamou, dizendo: Minha Mãe, levanta-te e chega ao lugar que eu te devo, pelo que me seguistes e imitado.

E o Espírito Santo disse: Minha esposa e minha amiga, vem aos meus braços eternos. 

 

 

Esta ordem da admirável Providência do Altíssimo foi dar ocasião à Mãe de Misericórdia, para que se sobrelevasse e se distinguisse a si mesma, e obrigasse a linhagem humana com um ato de piedade e clemência, como o que fez, semelhante ao de seu Filho, ao admitir o estado passível, suspendendo a glória que pode e devia receber no corpo para nos redimir.

Imitou-lhe nisto também sua Beatíssima Mãe, para que em tudo fosse semelhante ao Verbo humanado, e conhecendo a grande Senhora sem engano, tudo o que se lhe propunha, levantou-se do trono e prostrada ante o acatamento das Três Pessoas, falou e disse:

Deus eterno e todo-poderoso, meu Senhor: o admitir logo este prêmio, que vossa dignidade me oferece, há de ser para meu descanso.

O voltar ao mundo e trabalhar mais na vida mortal entre os filhos de Adão, ajudando os fiéis de Vossa Santa Igreja, há de ser para a glória e benefício de Vossa Majestade e em benefício de meus filhos, os desterrados e viajantes.

Eu aceito o trabalho e renuncio por agora este descanso e gozo que de vossa presença recebo.

Bem conheço o que possuo e recebo e o sacrifico ao amor que tendes pelos homens. Aceitai, Senhor e Dono de todo o meu ser, o meu sacrifício, e a vossa virtude divina me governe na empresa que me confiastes.

Dilate-se vossa fé, seja exaltado Vosso santo nome e multiplique-se Vossa Igreja, adquirida com o sangue de vosso Unigênito e meu, que eu me ofereço de novo para trabalhar por Vossa glória e obter as almas que puder.

1523. Esta resignação nunca imaginada, fez a piedosíssima Mãe e Rainha das virtudes, e foi tão agradável na divina aceitação, que logo a premiou o Senhor, dispondo-lhe com as purificações e iluminações que outras vezes referi (Cf. supra p. I. n. 626 s.s.) para ver a divindade intuitivamente; que até então, nesta ocasião, não havia visto, mais do que por visão abstrativa, com tudo o que havia precedido, e estando assim elevada, manifestou-se lhe em visão beatífica e foi cheia de glória e bens celestiais, que não se podem referir nem conhecer nesta vida. 

 

1524. Renovou nela o Altíssimo todos os dons que até então lhe haviam sido comunicados, e os confirmou e selou de novo e no grau que lhe convinha, para enviá-la outra vez como Mãe e Mestra da Santa Igreja, e o título que antes lhe havia dado de Rainha de todo o criado, de Advogada e Senhora dos fiéis, e como na cera macia se imprime o selo.

Assim, em Maria Santíssima, por virtude da onipotência divina, reimprimiu-se de novo o ser humano e a imagem de Cristo, para que com este sinal voltasse à Igreja militante, onde deveria ser um jardim verdadeiramente fechado e selado. (Cant 4, 12) para guardar as águas da vida.

Ó mistérios tão veneráveis quanto elevados! Ó segredos da Majestade altíssima, dignos de toda reverência! Ó caridade e clemência da Maria santíssima, nunca imaginada dos ignorantes filhos de Eva!

Não foi sem mistério, colocar Deus em sua eleição, desta única e piedosa Mãe, o socorro de seus filhos fiéis, delineado foi para manifestar-nos nesta maravilha, aquele maternal amor que talvez em outras e em tantas obras não acabaríamos de conhecer.

Foi ordem divina, para que nem a ela lhe faltasse esta excelência, nem a nós esta dívida, e nos provocasse exemplo tão admirável. A quem pareceria muito, à vista desta fineza, o que fizeram os Santos e padeceram os Mártires, privando-se de algum momentâneo contentamento, para alcançar o descanso, quando nossa amantíssima Mãe se privou do gozo verdadeiro para voltar a socorrer seus filhinhos?

E como escusaremos nossa confusão, quando nem para agradecer este benefício, nem por imitar este exemplo, nem para obrigar esta Senhora, nem por adquirir a sua eterna companhia e a do seu Filho, ainda não queremos carecer de um leve e enganoso deleite, que nos granjeia sua inimizade e a própria morte?

Bendita seja tal mulher! Louvem-na os próprios céus e chamem-na ditosa e bem-aventurada todas as gerações.

1525. A primeira parte desta História pus fim com o capítulo 31 das Parábolas de Salomão, declarando com ele as excelentes virtudes desta grande Senhora, que foi a única mulher forte da Igreja, e com o mesmo capítulo, posso encerrar esta segunda parte, porque tudo o compreendeu o Espírito Santo, na fecundidade de mistérios que encerram as palavras daquele lugar.

E neste grande sacramento que tratei aqui, verifica-se com maior excelência, pelo estado tão supremo em que Maria Santíssima permaneceu após este benefício.

Mas não me detenho em repetir o que ali disse, porque com isso se entenderá muito do que aqui poderei dizer, e se declara como essa Rainha era a mulher forte, cujo valor e preço vinham de longe e dos últimos fins do céu empíreo, da confiança que dela fez a Beatíssima Trindade, e não se achou frustrado o coração de seu varão, porque nada lhe faltou do que esperava dela.

Foi a nau do mercador que desde o céu trouxe o alimento da Igreja, à qual com o fruto de suas mãos a plantou, aquela que se cingiu de fortaleza, a que corroborou seu braço para grandes coisas, aquela que estendeu suas palmas aos pobres e abriu as mãos para aos desamparados, a que gostou e viu quão boa era esta negociação, à vista do prêmio na bem-aventurança, a que vestiu seus domésticos com dobradas vestiduras, a que não se lhe extinguiu a luz na noite da tribulação, nem pôde temer no rigor das tentações. 

 

Para tudo isto, antes de descer do céu, pediu ao Eterno Pai a potência, ao Filho sabedoria, ao Espírito Santo o fogo de seu amor, e à todas as três Pessoas, assistência e para descer sua bênção.

Deram-se lhe, estando prostrada diante de seu trono, e a encheram de novas influências e participação da divindade. Despediram-se dela amorosamente, cheia de tesouros inefáveis de sua graça. Os Santos Anjos e os justos a engrandeceram com admiráveis bênçãos e louvores com que ela voltou à terra, como direi na terceira parte (Cf. infra p. III n. 3), e o que obrou na Igreja Santa no tempo que conveio assistir nela, que tudo foi admiração do céu e benefício dos homens, que trabalhou e padeceu sempre, porque podiam alcançar a felicidade eterna.

E como havia conhecido o valor da caridade em sua origem e princípio, em Deus eterno, que é caridade, ficou diminuída nela, e seu pão dia e noite foi caridade, e como abelhinha oficiosa desceu da Igreja triunfante à militante, carregada das flores da caridade, para cultivar o Doce favo de mel do amor a Deus e ao próximo, com que alimentou aos filhos pequeninos da primitiva Igreja e os criou tão robustos e consumados varões na perfeição, que foram fundamentos bastantes para os altos edifícios da Santa Igreja. 

 

1526. E para terminar este capítulo, e com ele esta segunda parte, voltarei à congregação dos fiéis, que deixamos tão chorosos no Monte das Oliveiras.

Não os esqueceu Maria santíssima em meio de suas glórias, e vendo a sua tristeza e pranto, e que todos estavam todos quase absortos olhando para a região do ar, por onde seu Redentor e Mestre lhes havia escondido, voltou a doce Mãe seus olhos desde a nuvem em que ascendia, e de onde os assistia.

E vendo sua dor, pediu a Jesus amorosamente que consolasse aqueles pobres filhinhos que deixava órfãos na terra. Curvou-se o Redentor da linhagem humana com as orações de sua Mãe, despachou da nuvem dois Anjos com vestes brancas e refulgente, que em forma humana apareceram a todos os discípulos e fiéis, e falando com eles lhes disseram:

Varões galileus: não persevereis em olhar para o céu com tanta admiração, porque este Senhor Jesus, que se afastou de vós e ascendeu ao céu, outra vez há de voltar com a mesma glória e majestade que agora haveis visto. — Com estas razões, e outras que acrescentaram, consolaram os apóstolos e discípulos e os demais, para que não desfalecessem e esperassem a vinda e a consolação que lhes daria o Espírito Santo prometido por seu divino Mestre. 

 

1527. Mas advirto que estas razões dos Anjos, embora tenham sido de consolo para aqueles varões e mulheres, foram também uma repreensão à sua pouca fé.

Porque se ela estava bem informada e forte com o puro amor da caridade, não era necessário nem útil ficar olhando para o céu tão suspenso, pois não podiam mais ver seu Mestre, nem o deter com aquele amor e carinho tão sensível que lhes obrigava olhar para o ar, por onde ele havia ascendido ao céu, mas com a fé eles poderiam vê-lo e procurar onde ele estava e com ela certamente o encontrariam.

E o resto era já ocioso e imperfeito modo de procurá-lo, pois para obriga-lo a que os assistisse com sua graça, não era necessário que o corporalmente lhe vissem e falassem, e não entendessem assim, em varões tão ilustrados e perfeitos, era um defeito repreensível.

Muito tempo cursaram os Apóstolos e discípulos a escola de Cristo Nosso Bem, e beberam a doutrina da perfeição desde a sua própria fonte, tão pura e cristalina, que já podiam ser altamente espiritualizados e capazes da mais alta perfeição.

Mas é tão infeliz nossa natureza em servir aos sentidos e contentar-se com o sensível, que mesmo o mais divino e espiritual quer amar e gostar sensivelmente; e acostumada a essa grosseria, tarda muito para sacudir-se e purificar-se dela, e talvez se engana, quando com mais certeza e satisfação ama ao melhor objeto.

Esta verdade para o nosso ensinamento foi experimentada nos Apóstolos, aos quais o Senhor havia dito que de tal maneira era verdade e luz, que juntamente era caminho e que por ele haviam de chegar ao conhecimento de seu Eterno Pai; que a luz não é para manifestar-se sozinha, nem o caminho é para permanecer nele.

1528. Esta doutrina tão repetida no Evangelho e ouvida da boca do próprio autor e confirmada pelo exemplo da sua vida, pôde elevar o coração e o entendimento dos Apóstolos à sua inteligência e prática.

Mas o mesmo gosto espiritual e sensível que recebiam da conversação e trato de seu Mestre, e a certeza com que o amavam com justiça, ocupou-lhes todas as forças da vontade atreladas ao sentido, de tal maneira que ainda não sabiam como passar daquele estado, nem perceber que naquele gosto espiritual procuravam-se muito a si mesmos, levados da inclinação ao deleite espiritual, que vem pelos sentidos.

E se não os deixasse seu próprio Mestre subindo ao céus, seria muito difícil separá-los de sua conversação sem grande amargura e tristeza, e com isso não estariam idôneos para a pregação do Evangelho, que deveria ser difundido. em todo o mundo à custa de muito trabalho, suor e a própria vida daqueles que lhe pregavam.

Este era o ofício de homens que não párvulos, senão que esforçados e fortes no amor, não aficionados nem carinhosos ao dom sensível do espírito, mas prontos a padecer abundância e penúria, infâmia e boa fama (2 Cor 6, 8), às honras e desonras, à tristeza e à alegria, conservando nesta variedade o amor e o zelo da honra de Deus, com um coração magnânimo e superior a tudo o que é próspero e adverso. 

 

Com esta repreensão dos Anjos, voltaram do Monte das Oliveiras ao Cenáculo, com Maria Santíssima, onde perseveraram com ela em oração, aguardando a vinda do Espírito Santo, como na terceira parte veremos. Doutrina que me deu a Rainha do Céu, Maria Santíssima. 

 

1529. Filha minha: à esta segunda parte de minha vida, darás ditoso fim com ficar muito advertida e ensinada da suavidade eficacíssima do divino amor e de sua liberalidade imensa com as almas que não o impedem por si mesmas.

Mas conforme é a inclinação do sumo bem e sua perfeita e vontade perfeita e santa regalar às criaturas do que as afligir, dar-lhes mais consolos do que aflições, premia-las mais do que as punir, dilatá-las mais do que as contristar. Mas os mortais ignoram esta ciência divina, porque desejam que da mão do sumo bem lhes venham as consolações, os deleites e os prêmios terrenos e perigosos, e os anteponham aos verdadeiros e seguros.

Este pernicioso erro emenda o amor divino neles, quando os corrige com tribulações, e os aflige com adversidades, ensina-os com castigos, porque a natureza humana é lenta, grosseira e rústica, e se não se cultiva e rompe sua dureza, não dá frutos sazonal, nem com suas inclinações está bem disposta para o trato mais amabilíssimo e doce do sumo bem.

E assim, é necessário exercitá-la e poli-la com o martelo dos trabalhos e renovar no crisol da tribulação, para que se torne apta e capaz dos dons e favores divinos, ensinando-se a não amar os objetos terrenos e falazes, onde a morte está escondida.

1530. Pouco me pareceu o que trabalhei quando conheci o prêmio que a bondade eterna me havia prevenido, e por isso dispôs com admirável providência, que eu voltasse à Igreja militante por minha vontade e escolha, porque vinha para ser esta ordem de maior glória para mim e de exaltação ao santo nome do Altíssimo, e se conseguia o socorro da Igreja e seus filhos, pelo modo mais admirável e santo.

Pareceu-me muito devido, carecer aqueles anos que vivi no mundo da felicidade que tinha no céu e voltar a granjear no mundo novos frutos das obras e agrados do Altíssimo, porque tudo o devia à bondade divina que me levantou do pó.

Aprende, pois, caríssima, deste exemplo e anima-te com esforço para imitar-me no tempo em que a Santa Igreja se acha tão desconsolada e rodeada de tribulações, sem que nenhum dos seus filhos a procure consolar.

Nesta causa quero que trabalhes com esforço, orando, pedindo e clamando do íntimo do coração ao Todo-Poderoso por seus fiéis e padecendo, e, se necessário, dando por ela tua própria vida, que te asseguro, filha minha, será muito agradável para teu cuidado nos olhos do meu Filho santíssimo e nos meus.

Tudo seja para glória e honra do Altíssimo, Rei dos séculos, imortal e invisível, e de sua Mãe Santíssima Maria, por todas as suas eternidades. 

 

 

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Alguns dados da Venerável Maria de Ágreda

(Extraídos da Obra Mística Cidade de Deus, original espanhol, ao inicio descrita)

 

1-) Nascimento: 2 de abril de 1602

2-) Morte: 24 de maio de 1665

3-) Seu corpo permanece incorrupto, conforme imagens abaixo

 

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